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Viagem – Sobre viajar sozinha – #ItsOkToTravelAlone

Esse vai pra todas as mulheres que viajam sozinhas, que jantam sozinhas, que vão ao cinema sozinhas, que respondem talvez nunca quando perguntam quando voce vai parar de fazer planos de viajar e ter filhos, e que não deixam a falta de companhia atrapalhar seus planos de conhecer pessoas, coisas e lugares.

Sendo mulher, ou sendo ser humano, tem momentos que a gente se sente indestrutível e capaz de praticamente qualquer coisa, mas em outros momentos parece que essa pessoa nunca existiu. As vezes bate a sensação de estar no lugar certo na hora certa e ser exatamente quem voce imaginava ser quando tinha 12 anos, enquanto fingia ter cólica pra escapar das aulas de educação física. Mas as vezes, principalmente em eras da felicidade inabalável no instagram, parece que todo mundo tá lá na frente comprando casa e sendo promovido no trabalho enquanto voce continua gastando todo dinheirinho em hostels e viagens espontaneas, imaginando que talvez nunca tenha uma casa propria já que planejamentos de 30 anos não fazem seu tipo, e bate a sensação de continuar sendo a última a ser escolhida pro time de futebol. Mas no fundo sabe que mesmo se tiver que jogar sozinha, vai ter o melhor desempenho possível.

Isso porque voce sabe que suas fotos de paisagem mesmo sem muitos likes no instagram continuam sendo admiradas pelos outros e despertando neles a vontade de saber da onde voce tira a coragem e motivação pra viajar sozinha e ver ao vivo os lugares que voce viu, as coisas que voce fez e as pessoas estranhas que viraram seus melhores amigos por 3 dias. Mas independente de tudo o que voce desperta nos outros, voce sabe que o mais importante é a sensação de ficar bem quando está sozinha e de liberdade por não ter que dar satisfações, sabe que a falta de fotos de viagem significa que o momento era bom demais pra parar e fazer uma pose, e que independente de quanto efeito sua viagem surtiu nas mídias sociais a lembrança da sensação que voce experiementou enquanto olhava aquele por do sol da foto ainda vai durar alguns anos, se não uma vida.

Tomara que a gente continue se encontrando pelos hostels do mundo.

Agora esse vai pra todas aquelas que tem vontade de fazer tudo isso.

Quando eu decidi viajar pra Ilha Grande sozinha, escutei alguns comentários diferentes das pessoas pra quem eu contava meus planos. Surpreendentemente poucos eram positivos. Nenhum por maldade, a maioria por preocupação, mas muitos “mas porque sozinha? não tem ninguém pra ir com voce?”. O ano é 2017 e as mulheres avançaram barreiras na política, nos negócios, na tecnologia e na cultura, mas mesmo os amigos que eu considerava mais vanguardistas acharam estranho eu querer viajar comigo mesma.

Enquanto lia esse post da Ashley Ross sobre viajar sozinha ela cita a Kristin Newman, roteirista e autor das memórias de viagem What I Was Doing While You Were Breeding

“Eu acho que as pessoas tem medo de parecerem perdedoras. É a mesma coisa quando as pessoas não querem jantar sozinhas. Eu acho que elas tem medo de serem sozinha, de sentirem medo, e de parecerem que elas não tem ninguém.”

Verdade essa que eu comprovei conversando com várias pessoas de diferentes culturas nos anos que morei fora. Em determinado momento eu decidi parar de falar pras pessoas que ia sair sozinha, ou jantar ou viajar sozinha, pra evitar não só a desnecessária expressão de pena na carinha das pessoas mas o ”não se preocupa, eu vou com voce”. Jovem, eu não quero companhia. Eu vou sozinha por opção.

Para muitos, a idéia de estar sozinho traz sentimentos de tédio, isolamento e de ser forçado a confrontar os próprios pensamentos. E quem fala isso não sou eu, apesar se ser graduada em psiquiatria pela trilogia Hannibal. Enquanto pesquisava um pouquinho sobre a resistencia da grande maioria das pessoas em ficar sozinho, descobri que em 11 estudos feitos pela revista Science, foi percebido que os participantes, a maioria homens, não gostavam de passar de 6 a 15 minutos sozinhos, sem nada a fazer além de pensar. Muitos, inclusive, preferiam receber choques elétricos ao invés de serem deixados sozinhos com seus pensamentos. A maioria das pessoas parecem preferir fazer alguma coisa ao invés de não fazer nada, mesmo que “alguma coisa” seja algo negativo.

Sabemos que existe uma diferença entre estar sozinho, e se sentir sozinho (solidão). Nesse artigo do Huffington Post eles falam que estar sozinho é uma descrição física, que significa que nós não estamos com outras pessoas no momento. Enquanto se sentir sozinho é um sentimento frequentemente negativo e doloroso. A maioria das pessoas que experimentam essa sensação vem com raízes mais profundas. De acordo com o psicoterapeuta Ross Rosenberg, “a solidão é um sentimento incentivado por trauma, perda e tristeza, falta de auto-estima e insegurança. Aqueles que levam uma vida mais equilibrada e saudavel são melhor equipados para enfrentar essas experiencias negativas porque eles tem recursos tanto externos quanto internos para ajudar a guiá-los no processo”.

Nesse mesmo post, o psicoterapeuta oferece algumas dicas pra quem tem medo ou dificuldade de estar sozinho, algumas das quais achei bem pertinente pro nosso assunto. Uma delas é o bom e velho just do it. Se joga, enfrente o medo, e eventualmente voce vai perceber que não é tão ruim assim. Na verdade, as chances de voce tornar um medo em algo maravilhoso são bem altas. É mais ou menos como pular numa piscina que voce sabe que a água é gelada, mas também sabe que assim que entrar, o gelado vai passar e a sensação que fica é uma delícia.

Outra dica é optar por uma mudança de cenário. Fazer, sozinho, algo que voce nunca fez antes. Conhecer, sozinho, um lugar que voce nunca visitou. Nas palavras do especialista “Faça algo que voce nunca fez. Saia da sua zona de conforto física. No mínimo vai fazer o tempo passar mais rápido e voce pode acabar descobrindo que na verdade voce gosta da própria companhia”. Mais ou menos como ir num date as escuras e com as expectativas bem baixas, chegar lá e se apaixonar em menos de cinco minutos.

Viajar sozinha é uma oportunidade única de descobrir que voce realmente é, e ser simplesmente voce mesma, rodeada de pessoas e lugares completamente novos e sem ninguém do seu presente, ou passado, para te influenciar nas decisões ou opiniões. Sendo mulher, a idéia de viajar sozinha pode parecer assustadora para uma grande maioria, mas a boa notícia é que existem ainda muitos lugares que podem fazer a gente se sentir segura e bem-vinda. E quando voce encontra o lugar certo, uma viagem sozinha – independente da duração dela – tem o poder de te beneficiar por anos, ou até pela vida inteira, transformando toda a resistencia inicial em empoderamento e autonomia.

Felizmente, por questão de quantidade de informações prontas, mas infelizmente por isso precisar ser tão necessário devido as altas taxas de violencia contra a mulher no mundo, existem inúmeros artigos que listam os lugares mais seguros para mulheres viajarem sozinhas. Inclusive se voce digitar “women traveling alone” no Google, é só o que voce vai encontrar. Poucos deles mencionam nosso amado país, que não costuma ser sinonimo de segurança em ingles, mas digo que a Ilha Grande é definitivamente um desses lugares, mesmo tendo sido apenas minha primeira viagem sozinha no Brasil.

Tirando a questão da violencia, o segundo pensamento que parece passar na cabeça da maioria das pessoas com quem eu converso é se eu vou ser capaz de aguentar minha própria companhia 24 horas por dia. A boa notícia é que costumamos ser excelentes companhias pra nós mesmas. Uma coisa é certa – o assunto nunca acaba. Quando se está sozinha, principalmente quando sabe que esse tempo vai ser de mais de um dia, a gente até consegue fugir por algumas horas de nós mesmas e evitar aquelas conversas ruins, porém necessárias, que precisamos ter com a gente, como enfrentar o negativo na conta bancária ou assumir que não gosta do próprio trabalho, namorado ou método contraceptivo. Seja com a distração de um livro ou com a companhia de outras pessoas. Mas eventualmente essa conversa vai existir, e isso é muito bom pra conseguir colocar ordem na casa e aprender a se aproveitar. Acredito que muito mais resoluções são feitas, questões são resolvidas e planos são postos em prática quando se está sozinha, do que com a opinião de alguém.

Por fim, acho que o terceiro pensamento mais recorrente na cabeça de quem vai viajar sozinho pela primeira vez pode também ser “será que eu consigo me virar?”. A vulnerabilidade é, na minha humilde opinião, o melhor lugar pra se evoluir. Dentro da vulnerabilidade e fora da zona de conforto a gente precisa se obrigar a ser, a falar, a fazer.

Lembro que quando eu fui morar na Australia em 2010, eu viajei com minha melhor amiga, que ja tinha passado um ano lá. Fomos pra Gold Coast, onde possivelmente tem a  maior quantidade de brasileiros por metro quadrado fora do Brasil, e refletindo eu percebo que quase nada era diferente de quando eu morava no Brasil. Apesar da cara das pessoas e das paisagens terem mudado, a a lingua continuava a mesma, as comidas também, o churrasco de domingo passou a ser na praia e a festa com música brasileira todas as terças feiras. Até o sushi continuava a ser salmão com cream cheese e cebolinha, não me pergunte como. Não lembro de nada que eu tenha aprendido nesses tres meses que eu guardei até hoje. Mas quando esses tres meses acabaram eu fui morar em Brisbane. Cidade maior, brasileiros mais espalhados, e um emprego em uma empresa israelense. Em um mes sozinha em um lugar sem conhecer ninguém, eu acabei aprendendo muito mais coisas e, ironica mas logicamente, conhecendo muito mais pessoas. A vulnerabilidade nunca fez tão bem.

 

Como sempre, não sei terminar textos. Então aproveito pra lançar algumas reflexões – qual foi a última vez que voce fez alguma coisa sozinha? Voce já deixou de conhecer algum lugar por falta de companhia? Agora, emprestando mais uma vez as palavras de Caetano, voce consegue rapidamente num pedaço de papel enumerar as dores e as delícias de ser quem voce é?

 

 

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