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Viagem – Sozinha pela Ilha Grande (RJ) #ItsOkToTravelAlone

Há alguns anos eu fiz um cruzeiro pelo Brasil que me deixou com uma curiosidade que só consegui matar no final de semana passado – a de conhecer melhor a Ilha Grande, no Rio de Janeiro. Como eu estava prestes a entrar em uns meses de rotinas bagunçadas no trabalho, sem conseguir tirar mais de uma folga seguida, decidi tirar uns 5 dias seguidos antes disso e viajar para recarregar baterias que eu nem sabia que tinha descarregado. Como eu queria ir de carro, em uma viagem low budget, escolhi ir pra Ilha Grande e matar logo essa vontade, com uma pausa para almoçar em Paraty na volta. Ninguém podia ir comigo, então fui sozinha mesmo, e não teria feito diferente.

Pesquisando voce descobre que ir de onibus sai mais economico quando se viaja sozinha, porque salva o gasto com o carro e o com o estacionamento (que não sai barato), mas o carro dá aquela liberdade de aproveitar o caminho, parar quando quiser, esticar a viagem em Paraty na volta e fazer aquela meditação involuntária quando se está sozinha no volante na estrada. De São Paulo até Angra dos Reis, onde escolhi parar e deixar o carro pra pegar a lancha pra Ilha Grande, leva de 5 a 6 horas, dependendo do tanto de xixi que voce precisa fazer, de café que voce precisa tomar e de vezes que voce precisa parar na estrada pra admirar a vista. No meu caso, 6 horas, ja que saí de São Paulo as 5 da manhã e cafés foram mais do que necessários. Mas na verdade, de viagem com estrada monótona (Dutra) foram umas 3 e pouco, porque o resto foi em uma estradinha deliciosa, cheia de curvas (não recomendo na chuva), arborizada, com túneis bucólicos feitos de pedra e algumas cachoeiras pelo caminho.

Chegando em Angra eu estacionei no estacionamento Dois Irmãos que, assim como a maioria, cobra $30 a diária para vagas descobertas. Um funcionário me deixou na marina para pegar a lancha, mas mesmo se fosse a pé não levaria mais de 5 minutos andando. Chegando lá voce pede pela lancha mais rápida e que vai sair mais em breve para Ilha Grande, o que custa em média $80 se voce já compra ida e volta. Recomendo ficar de olho já na volta, pois aos finais de semana as lanchas voltando da Ilha não são tão frequentes.

Na Ilha Grande decidi me hospedar em hostel, por motivos obviamente financeiros, e optei pelo Che Lagarto. O Che Lagarto é a maior rede de hostels da América Latina, e costuma ser sempre bem localizado nas cidades onde ele se instala. Em Ilha Grande ele fica em Abraão, que é onde está o principal centro de atividades comerciais e pousadas, e onde fica a marina (o chamado centrinho). No caso de Ilha Grande, bem localizado é pouco. O hostel tem simplesmente um deck para o mar com vista de 180 graus do por do sol. E é ali que voce vai tomar seu café todas as manhãs e seu vinho rosé todas as noites, com a provável melhor vista da ilha em nível de hospedagem. Se voce quiser, pode até tirar foto do por do sol, colocar no instagram com uma hashtag #privatehideaway e ninguém vai desconfiar que voce está pagando menos de 100 reais na diária.

No próprio hostel eles vão te dar dicas de trilhas pra fazer sozinho, passeios que vendem por aí, e lugares pra conhecer. Em geral, tudo é meio parecido. Como uma ilha que vive quase que exclusivamente do turismo, assim que voce desce da lancha já é inundado com milhares de ofertas de empresas que fazem passeios pela ilha. Já adianto que são todos iguais, com os mesmos preços, e possivelmente tem os mesmos donos. Entre os passeios que eles vendem estão Meia Volta a Ilha, Ilha Sul, Volta Inteira e Ilhas Paradisíacas. Alguns deles (como a Volta Inteira e Ilha Sul) são suscetíveis ao tempo e as condições do mar, e no período em que eu estava lá estavam suspensos. Por isso escolher fazer o Ilhas Paradisíacas, e é tão delícia quanto o nome sugere.

Normalmente esses passeios (que variam de 70 a 180 reais, no caso da volta inteira a ilha) passam por 4 ou 5 praias ou ilhas e ficam de 30 a 50 minutos em cada. Alguns deles tem faixa de areia para descer, beber um negocinho, e fazer o que quiser, enquanto outros a lancha fica parada no mar e as pessoas mergulham de lá se quiserem, ou ficam na lancha mesmo. Lancha essa que vem equipada com snorkel, macarrão (esses que boiam, não o de comer, risos) e, tão importante quanto, gelo para deixar o vinho rosé. No caso, eu era a única com vinho rosé. Outras pessoas usavam para a cerveja mesmo. Geralmente a última ilha é para almoçar, e depois voltar para Abraão quase dormindo com um cabelo que de tanto pegar vendo já nem se mexe mais.

Quando eu cheguei de volta em Abraão por volta das 17h eu estava completamente esgotada e andei pro hostel. Foi então que eu entendi que existem dois tipos de hóspedes em hostels. Aqueles que chegam no quarto, tomam banho, dormem um pouquinho, e descem pra comer e fazer esquenta pra sair depois. E aqueles que chegam no hostel, tomam banho, comem, leem um livro por mais de 3 horas ininterruptas e vão dormir antes das nove da noite. No caso eu pertencia ao segundo grupo. Acho que eu pertencia sozinha a esse segundo grupo.

Por isso acordei no dia seguinte cheia de energia pra fazer uma trilha pra praia de Lopes Mendes, vulgarmente conhecida como uma das praias mais bonitas do Brasil (li isso em alguns lugares mas não achei a fonte exata). Lopes Mendes é daquelas praias compridas com areia branquinha e água bem azul. Dessas que não precisa de guarda sol porque a natureza já providenciou alguns. Mas que pra chegar, se não tiver barco, é preciso penar um pouquinho.

Pra ir até Lopes Mendes voce tem a opção de pegar um taxi boat (normalmente custa $20 o trecho) até a praia do lado e depois andar cerca de 40 minutos em uma trilha bem tranquila. Outra opção, que eu escolhi no ápice da energia de quem acorda as 6 da manhã, é fazer a trilha desde Abraão até Lopes Mendes. Essa opção leva umas duas horas, sendo a maior parte subida, umas 4 trilhas e passa por 3 praias. E também vale cada dor na panturrilha que voce vai sentir quando acordar no dia seguinte. Além do fato de que fazer trilhas traz uma paz e uma energia deliciosa do contato com a natureza, é um exercício muito bom com uma recompensa melhor ainda. Durante o trajeto, além de vendedores de coisinhas (salgadinhos, cervejas e outros industrializados) voce também passa por um ou outro restaurante, sendo um deles (na penúltima praia antes da última trilha pra Lopes Mendes) tem um restaurante flutuante bem simples, mas delicioso de sentar. E eu acabei de bater o recorde do número de vezes que falei delicioso em um post que não é sobre comida ou vinho. Por fim deixo minha única sugestão – se for fazer essa trilha, prefira usar tenis ao inves de chinelo devido as inúmeras topadas no dedão que voce pode poupar.

Chegando de volta no hostel, tomo banho, desço, leio meu kindle mas dessa vez vou tomar um vinho com umas pessoas que conheci no hostel lá no centrinho de Abraão, que é um típico centrinho de praiazinha. Tem a igrejinha, os hippies artesãos que montam suas tendas e vendem filtro dos sonhos perto do mar, as lojinhas de souvenier absolutamente cafonas, os restaurantes que montam mesinhas na praia com velas de centro e cobram 2 vezes mais que aqueles que ficam duas quadras pra trás, e as one-man band ao vivo que tocam o que tem de mais cliche e amado na música popular brasileira, trazendo remix de Garota de Ipanema com Despacito pra mostrar nossa autenticidade latina. Ou seja, meu tipo preferido de centrinho.

No dia #4 eu decidi conhecer a Praia e a cachoeira da Feiticeira. Claro que existe uma trilha (de 1 hora e meia) que leva até lá mas naquela altura do campeonato eu já tava com preguiça e só queria deitar no sol e curtir o dolce far niente. Pra chegar na praia da feiticeira, além da trilha, voce pode pegar um taxi boat. O ideal é achar outras pessoas pra fazer isso com voce, já que sozinha custaria uma fortuna. Encontrei dois casaizinhos que estavam shamefully carregando um isopor maior do que eles e uma caixa de som maior do que eu, e acabamos pagando $40 reais por pessoa, ida e volta, com a volta já combinada com o motorista/piloto/capitão/barqueiro para as 17 horas. Fiquei encantada quando cheguei na praia, que é bem pequena, de areia branquinha, água verdinha e uma barraquinha vendendo, entre caipirinhas e industrializados, açaí e água de coco. Fiquei tão encantada que narrei tudo isso no diminutivo.

Depois de algumas horas no sol resolvi juntar as tralhas e conhecer a cachoeira. A trilha pra chegar lá é uma subida bem pesadinha de uns 40 minutos, mas mais uma vez a jornada é bem recompensada no final. A cachoeira é pequena, de uns 15 metros de altura, e água geladinha como tinha que ser. Lá tinha um instrutor de rapel descendo com as pessoas pelas águas e eu pude fechar com ele na hora. Por $50 voce desce uma vez e tira um milhão de fotos na Gopro dele que depois cobra $20 pra ter as fotos e vídeos. Se voce fechar esse passeio na agencia, lá em Abrahão, aí fica $70 o rapel. Mas ele sempre acaba fazendo com quem decide fechar na hora, a diferença é que quem fechou pela agencia tem prioridade na descida.

Voltando pra Praia da Feiticeira, por volta das 15 horas, foi como chegar nas praias de Balneário Camboriú. Exceto que a sombra não vinham dos prédios, mas das árvores, a quantidade de pessoas por metro quadrado era muito maior do que o desejado e os decibéis de música sertaneja com certeza muito mais alto do que o necessário. Que é zero. Por isso fica minha humilde recomendação de acordar cedo pra começar os passeios e pegar as praias ainda vazias e tranquilas.

Como essa era minha última noite, decidi aproveitar ao máximo. E por ao máximo, digo dar uma volta no centro e dormir não as nove ou as dez, mas as dez e MEIA. Comprei a conhecida cachaça Gabriela Cravo e Canela, que realizou todos os meus desejos infantis de tomar uma garrafa de biotonico fontoura no gargalo e ficar bebada, só que eu só precisei de meia garrafa pra isso. No dia seguinte, de passagem de lancha comprada, peguei o horário das 8h pra buscar o carro no estacionamento e passar em Paraty pra almoçar antes de voltar pra São Paulo.

Dos passeios que não fiz e gostaria muito de ter feito, foram – conhecer Caxa Daço, que é uma praia absolutamente paradisíaca. Pelo mapa ela fica perto de Lopes Mendes, exceto que não existe trilha de uma para a outra, então ir sozinha pela trilha de 4 horas se fez impossível. No entanto existem passeios que param nessa praia (o Volta a Ilha e o Ilha Sul) mas que não estavam saindo por questões marítimas. E fazer a trilha do Pico do Papagaio, que é uma trilha de 3 horas o trecho, sendo que a ida é só subida. O Pico é o segundo ponto mais alto da Ilha Grande e proporciona uma visão 360 graus do nascer do sol, que dizem ser absolutamente maravilhoso. Por isso a trilha sai as 2 da manhã e chega por volta das 9 de volta em Abraão. Fica a dica se voce gosta de trilhas e for passear por esse paraíso que é a Ilha Grande no Rio de Janeiro.

Das coisas que eu levei, ou não levei mas recomendo levar, para sua viagem sozinha na Ilha Grande são –

  • Duas garrafas de vinho rosé que serão muito bem aproveitadas durante esses quatro dias, proporcionando uma dose moderada de euforia seguida de um sono gostoso as nove da noite.
  • Algumas mexiricas ou qualquer fruta que voce goste pra fazer as trilhas, já que muitas vezes voce não vai encontrar opções além de salgadinhos, e chega uma hora que Ruffles Churrasco não desce mais.
  • Repelente, protetor solar e sorine (to brincando jovens, não usem sorine, ele não faz bem, e tem farmácia lá).
  • Mochila e tenis pra fazer trilha (muito mais útil que bolsa de praia que não são nada práticas de carregar)
  • Inclusive, leve uma mochila pra viagem e não mala de rodinha porque elas vão encher de areia e voce não vai querer pagar $20 pro homem carregar pra voce até a pousada
  • Kindle com livros baixados (internet não é o ponto alto dos serviços prestados na Ilha Grande) ou livros mesmo. Apesar de que Kindle pesa menos na mochila da trilha.
  • Chegando lá compra uns ovinhos caso voce vá ficar em hostel que de café da manhã só serve frutas (bom, mas não enche a barriga) e pães e bolos e coisas que pesam um pouco.
  • Dinheiro vivo, porque na Ilha Grande não tem maquina de cartão de crédito e alguns restaurantes e taxi-boaters (seria taxistas?) não aceitam cartão. Sem contar que os lugares que aceitam também podem ficar sem sinal. Eu levei $300 e deu certinho incluindo os pedágios, mas tudo que eu podia eu colocava no cartão.

 

Alguns custos que eu tive, pra servir como base –

  • Gasolina eu gastei em torno de $270. Lembrando que a gasolita tá caríssima. Acho que foram uns 2 tanques.
  • Hostel eu gastei $340 pra ficar de quarta a domingo (não era feriado)
  • Lancha de ida e volta pra Ilha Grande, de Angra dos Reis, custou $80
  • Estacionamento foram 4 diárias a $30 por dia, gastei $120 (só aceitam dinheiro ou débito)
  • Passeio de Ilhas Paradisíacas custou $90
  • Rapel na cachoeira custou $50 na hora

Espero que essas dicas e experiencias tenham sido úteis pra voce. Tão breve quanto possível eu vou fazer um post sobre viajar sozinha porque eu ouvi tanto “mas Mafer, porque voce vai sozinha?”, e “mas Mafer, voce e Caio brigaram?” e “como voce tem coragem?” e, o meu preferido, “ahhh coitada” que eu acho que preciso enfatizar sobre a maravilha de estar só consigo mesma.

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One Comment

  • Ana Paula setembro 27, 2017 at 5:09 pm

    Que delícia de viagem! Fiquei com vontade de fazer a mesma coisa agora!!!

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